Lavar a Alma

O que não posso falar, preciso escrever, as palavras estão presas no meio de minha garganta, sinto que preciso ir embora de alma lavada.

Sinto que sou a pessoa que nunca foi ouvida, o grito sempre preso na garganta.

Sempre às sombras, sempre a "esquisita", sempre o erro.

Uma vez ouvi meu pai dizer quanto seu pai o batia... Eu era pequena, e não entendia aquilo, nessa noite, a epifania veio.

As marcas de relacionamento tóxico, de autoridade desnecessária são um elo inquebrável. Passando de geração em geração, deixando dores em lugares do subconsciente que ninguém nunca vai ver... E muitas vezes,vc se torna um monstro quando expõe esse elo, pois é isso que ele é, um monstro dentro de mim.

Eu cresci ouvindo meu pai chamar diversas pessoas de "filhinha" com uma ternura que ele nunca dirigiu aos próprios filhos. Estranhos sempre tiveram mais valor pra ele que os próprios "sangue do sangue". 

O olhar dele pra mim, um olhar de desdém. Nunca vi um olhar de orgulho ou aprovação e olha que passei anos buscando por isso.

Pra ele, sempre foi mais facil ajudar qualquer um, seja um mendigo bebado na rua, ou um pastor abusador, ou primo que nem é de sangue. Mas seus próprios filhos? O mínimo sempre foi dado como se muito.

Hoje, vejo que as pessoas de minha própria família nem sabem meu nome direito, só tem interesse em mim, por mudar de país em breve.

Ninguém vê, que essa mudança, é uma fuga, vem do desejo de recomeçar e de fugir de todo esse elo de dor e mágoas.

Eu nunca fui boa, sempre fui a ovelha negra, e sinto que cresci com esse peso, o peso dos olhos reprovadores. E ninguém sabe o quanto eles pesam, os espinhos que vem com eles.

Uma vida vivida que ninguém nunca soube, ou se importou em saber. 

Sempre que digo qualquer coisa, não vejo interesse em seus olhos, ou amor, ou nada, indiferença talvez.

E o contrário do amor, é a indiferença.

Tudo aqui foi literário, nenhuma metáfora, só a pura lavação da alma com lágrimas .